sábado, 25 de novembro de 2017

As cheias de Novembro de 1967

No dia 26 de Novembro de 1967, Portugal acordou com uma terrível noticia, a chuva que caíra abundantemente na noite e madrugada anterior tinha causado, na região de Lisboa, centenas de mortos.
O primeiro alerta ocorreu pelas 21:10 do dia 25 numa chamada para os Bombeiros Voluntários de Odivelas, as casas do lugar de Silvado estavam a ser invadidas pelas águas da ribeira.

Os efeitos das inundações (Revista Life)

Aquele sábado amanheceu chuvoso, uma chuva persistente que durou todo o dia, nada de anormal para um dia de Novembro, mas o pior estava para vir, ao principio da noite uma forte bátega abate-se sobre a capital e concelhos limítrofes. Entre as 19 e as 24 horas a estação meteorológica de S. Julião do Tojal (Loures) registou 111 mm (111 lt/m2), houve mesmo locais onde se registaram 170 mm, em apenas 5 horas choveu o equivalente a um quinto da precipitação média anual na região de Lisboa.

Mapa de precipitação do dia 25-11-1967 (IPMA)

Os mais de 700 mortos, embora oficialmente só tenham sido contabilizadas 462 vitimas, faz com que as cheias de Novembro de 1967, sejam consideradas a segunda maior catástrofe natural de que há noticia na região de Lisboa, logo depois do terrível terramoto de 1755.

Evolução do número de vitimas mortais entre o dia 30 de Novembro e 5 de Dezembro (Diário Popular)

Lisboa, Sintra, Loures, Cascais, Oeiras, Vila Franca de Xira, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Almada e Barreiro foram os concelhos mais afectados, mas as consequências tiveram a mesma gravidade em todo o lado, se nos concelhos mais "ricos" os danos materiais foram mais elevados, foi porém nos concelhos limítrofes e especialmente na áreas economicamente mais desfavorecidas que os custos em vidas humanas foram mais elevados, como quase sempre eram os mais pobres que se encontravam mais vulneráveis e expostos ao perigo.

Registo das ocorrências na cidade de Lisboa na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 (C. M. de Lisboa)

As instituições do estado assistiram quase impotentes ao desenrolar da tragédia, ao poder politico que tinha sido incapaz de manter as pessoas a salvo, ordenando o território, impedindo a construção em áreas de risco e promovendo a habitação social em áreas seguras, pouco mais lhe restava do que gerir e controlar a informação, de modo a "cair" o melhor possível  na opinião pública.

As noticias era sujeitas à censura (A Republica)

A censura estava instituída e  em pleno funcionamento, não saía uma noticia ou um espectáculo que não fosse visado previamente, tudo o que fosse "incómodo" para o poder instituído era "cortado" ou "suavizado". Nestes dias, atendendo ao volume de informação e ao inesperado da situação os sensores tiveram muito "trabalho", e se conseguiram travar uma ou outra informação mais "sensível" mas não foi de todo possível encobrir os contornos e os efeitos da tragédia.

Noticia censurada (Diário Popular)

Ainda hoje não se sabe ao certo quantas pessoas faleceram, a determinado momento a comissão de censura ordenou aos jornalistas que parassem a "contagem" dos mortos, tendo o número oficial ficado nos 462, mas estudos posteriores avançam com um número a rondar os 700. 

Porque choveu tanto?


Os valores extremamente elevados de precipitação, explicam-se pela conjunção de dois fenómenos meteorológicos, por um lado uma depressão muito cavada que avançou de sudoeste e por outro lado uma frente fria vinda de norte, a conjugação rara dos dois sistemas resultou num volume de precipitação perfeitamente anormal, nunca registado em Portugal.

A "culpa" foi da natureza?


Será que a catástrofe se ficou a dever a uma fatalidade, um "capricho" da natureza, como o governo da altura e os principais órgãos de comunicação social fizeram crer?
Sim e não. Se de facto a causa próxima foi a precipitação anormal, agravada por factores naturais como por exemplo as bacias hidrográficas da área terem dimensões reduzidas e com tempos de resposta muito curtos o que propicia cheias rápidas, ou o pico da precipitação ter coincidido com a preia-mar, o que impediu o escoamento rápido da água para o Tejo. Por outro lado os factores humanos resultantes do mau ordenamento do território agravaram enormemente os seus efeitos nefastos.
Devido ao êxodo rural das décadas anteriores, muitos dos habitantes do campo rumaram à região de Lisboa à procura de emprego na "cintura industrial" de modo a melhorarem as suas condições de vida, mas a falta de alojamentos acabou por "empurrar" essa enorme massa de gente pobre para bairros clandestinos, erigidos normalmente em antigos terrenos agrícolas e em áreas de várzea junto dos cursos de água.

Baixa de Algés (Revista Life)

Habitações destruídas em S. João do Tojal (Diário de Lisboa)

Bairro da Ulmeira (Diário Popular)

Quintas, Castanheira do Ribatejo (Revista Flama)

Ilha das Minhocas (Século Ilustrado)

Por outro lado o crescimento das áreas urbanas foi feito sem se acautelar os efeitos das chuvas, enormes áreas foram desmatadas e impermeabilizadas, contribuindo dessa forma para o impedimento da infiltração natural da água nos solos, muitas das linha de água foram canalizadas e cobertas, normalmente com infraestruturas que não permitiam o volume de água verificado, construíram-se igualmente muitas estruturas transversais nas linhas de água, com a força da corrente aumentada com a quantidade de detritos transportados (a água arrastou tudo, desde árvores, moveis, barracas, etc) muitas dessas estruturas acabaram por colapsar contribuindo para o transbordo das linhas de água, permitindo que a mesma chega-se a lugares onde era de todo inesperada.
O "saldo" não podia ser mais trágico, para além das largas centenas de mortos, cerca de 20 mil casas ficaram inabitáveis e mais de 1100 pessoas ficaram desalojadas.

Video sobre as causas e os efeitos (Arquivos RTP)

Quintas, a aldeia "mártir"


Quintas era (e é) uma pequena aldeia a poucos quilómetros de Castanheira do Ribatejo no concelho de Vila Franca de Xira, nessa noite de 1967 a pequena povoação viu as águas do Rio Grande da Pipa subirem repentinamente mais de oito metros, submergindo quase a totalidade das casas, dos cerca de 150 habitantes da localidade mais de 100 pereceram na madrugada do dia 26, conseguindo-se salvar, quase por "milagre", os que conseguiram alcançar os telhados das casas ou qualquer outro ponto alto seguro.


Localização de Quintas (Google)

Famílias inteiras pereceram em Quintas, gente de todas as idades, cujas memórias se encontram actualmente perpetuadas em dois monumentos, um no largo da Igreja, inaugurado em 2008, onde figuram os nomes das vitimas, e outro um pouco mais abaixo, em pleno "coração" da área atingida pela catástrofe e associado a uma rua renomeada em 1996 como "Rua 26 de Novembro de 1967" em evocação de uma data que perdurará na memória dos sobreviventes e na  dos que viram partir inesperadamente os seus entes queridos.

Monumento em memória das vitimas de Quintas (J.F. Castanheira do Ribatejo)

Os efeitos das inundações de 1967 na sociedade


Antes do mais, este trágico episódio histórico ajudou a despertar consciências, muitas pessoas tomaram pela primeira vez conhecimento da miséria que viva paredes meias e que por ignorância ou por indiferença não viam, ou não queriam ver.
A "máscara" paternalista e protectora do "Estado Novo" começou a cair nessa altura, como se podia confiar num estado que dizia forte, mas que se mostrava incapaz de proteger os mais fracos dos caprichos da natureza e da ganância de alguns, esses sim "protegidos"?
Pela primeira vez o termo "ordenamento do território" passa para a ordem do dia, muitos começam a entender a importância de ordenar a localização das actividades e das funções económicas e sociais, torna-se evidente que é necessário colocar as pessoas longe do perigo.
A sociedade civil, encabeçada pelas associações de estudantes universitários substitui-se ao estado na ajuda às populações afectadas. Cerca de cinco mil estudantes foram para o terreno ajudar a resgatar mortos e feridos, limpar destroços, recolher e distribuir bens e fundos para apoiar os necessitados e a aplicar vacinas para impedir a proliferação de doenças infecto-contagiosas.

A participação dos estudantes (Diário de Lisboa)

O contacto com a realidade contribuiu para a consciencialização social e para a politização dos milhares dos voluntários.
As águas desceram, os mortos enterrados, os feridos tratados, as ruas lavadas e os que ficaram sem casa formam realojados, mas as inundações deixaram uma marca indelével por todos os que tiveram conhecimento directo ou indirecto da tragédia que de uma forma ou outra constitui-se como um ponto de viragem na nossa história recente, e contribuiu para mudar Portugal.

E se fosse hoje?


Os especialistas afirmam que a probabilidade de um fenómeno dessa magnitude acontecer (período de retorno) é de uma vez a cada 500 anos, outros porém apontam para um período de retorno mais curto, cerca de um século. Mas independente da frequência, uma pergunta legitima subsiste, e se acontece-se novamente nos nosso dias?

Área potencial de inundação na área de Loures / Odivelas (Sistema Nacional de Informação de Ambiente)

Se um fenómeno com a mesma amplitude acontecer actualmente, muito provavelmente a destruição será maior, infelizmente a memória é curta e embora alguns locais de risco elevado tenham sido renaturalizados e criadas infraestruturas de defesa para inundações e cheias rápidas, na maior parte dos locais onde os estragos foram mais avultados e onde ocorreram vitimas mortais, a ocupação do solo continua a ser desadequada e as pessoas que lá vivem estão em risco permanente.
A impermeabilização dos solos continuou, aquilo que eram bairros clandestinos, passaram a habitações permanentes, muitas vezes com vários pisos, continuou-se a construir junto dos cursos de água, habitação e mesmo grandes espaços industriais e comerciais, e a desviar, tapar e encanar ribeiras.
Mas nem tudo são más "noticias" se um fenómeno semelhante voltar a suceder nos próximos tempos a probabilidade de ocorrer um tão elevado número de vitimas é mais baixa, os sistemas de previsão e de alerta para fenómenos extremos evoluiu muito, agora as pessoas têm um acesso incomparavelmente melhor e mais rápido à informação e os sistemas e meios de socorro também melhoraram consideravelmente.
Em suma, se voltar a acontecer, ou melhor, quando voltar a acontecer, possivelmente os danos serão incomparavelmente mais extensos mas a perda de vidas humanas será menor.
Relembrar estas tragédias não pode ser apenas um exercício jornalístico ou uma evocação da memória das vitimas, tem de servir igualmente para recordar a todos a importância do ordenamento do território e para a consciencialização dos riscos, só assim as mortes dessa já longínqua noite de Novembro não terão sido em vão.

Por: Luís Baltazar

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