domingo, 16 de setembro de 2018

Níveis de Dificuldade nos Percursos Pedestres


O nível de dificuldade dos percursos pedestres resulta de uma estimativa subjectiva e é estabelecido tendo por base um conjunto de factores, que podem ser divididos em 3 grandes grupos: Estruturais, conjunturais e pessoais.

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas em pé, sapatos, árvore, criança, ar livre e natureza
Actividade Ambitare.com

Começando pelos factores estruturais, neste grupo temos os factores imutáveis tais como: Distância, orografia, altitude, tipo de piso, etc.
Depois existem factores variáveis (conjunturais) que podem alterar o nível de dificuldade, tais como: Estado do tempo (temperatura, humidade do ar e precipitação), hora do dia, disponibilidade de água, acesso a meios de socorro, etc.
Mesmo assim o valor apresentado é meramente indicativo e pode variar de pessoa para pessoa, pois existem factores individuais que influenciam no rendimento e consequentemente na dificuldade do percurso, tais como: Idade, capacidade física, estado anímico, experiência na prática de actividades de campo, peso, ritmo de caminhada, roupa e calçado utilizado, peso e volume transportados, etc.
Assim, considerando o atrás exposto, foram estabelecidos 5 níveis de dificuldade para percursos pedestres, sendo que: Cada pessoa deve estar plenamente consciente das suas capacidades e limitações e caso considere que não se encontra em boa condição física e anímica, deve-se abster de efectuar o percurso, sob pena de se colocar em risco, a si e ao grupo que integra.

Níveis de Dificuldade (padrão internacional)


  • Fácil
    Qualquer pessoa que esteja de boa saúde pode participar sem problemas. Normalmente são distâncias curtas, realizados com bom tempo, têm declives suaves, bom piso, e o ritmo de caminhada é lento. Têm duração inferior a 3 horas com pelo menos 2 paragens de 10 minutos para comer/beber e descansar. Acessíveis a principiantes e crianças.
    Exemplos: Visitas a parques urbanos ou museus.
  • Moderado
    Um pouco mais difíceis que o anterior (fácil), e embora não requeira muito boa forma física, é necessário estar bem de saúde e estar habituado a caminhar, com distâncias até os 10/12 km, com alguns declives pouco acentuados e uma duração de 4/5 horas com pelo menos 1 paragem para comer/beber e descansar.
    Exemplos: Percursos por caminhos florestais em Parques Naturais, Percursos urbanos em cidades menos planas (como Lisboa), etc.
  • Moderado / Difícil
    Requer alguma preparação física dos participantes, a principal diferença em relação ao anterior (moderado) é fundamentalmente o tipo de piso (mais irregular) e a existência de mais troços declivosos. Percursos considerados de nível médio se forem feitos em condições climatéricas desfavoráveis, de noite ou numa altitude mais elevada devem ser classificados neste nível. A disponibilidade de material técnico como vestuário e calçado adequado e o uso de bastões de caminhada podem facilitar a tarefa.
    Exemplos: Percursos no topo de arribas, Percursos em serras mais elevadas (Gerês, Estrela ou Madeira p.e.)
  • Difícil
    Recomendável apenas a quem esteja em boa forma física e que tenha experiência em actividades de campo, normalmente desenvolvem-se em terrenos irregulares e com declives muito acentuados e em grande número, igualmente para percursos realizados em condições climatéricas desfavoráveis (temperaturas fora dos níveis de conforto, humidade do ar muito baixa, chuva forte e persistente ou neve), distâncias superiores a 30 km, ou mais de 20 km/dia durante vários dias. É essencial o uso de material técnico, nomeadamente vestuário e calçado adequado ao tipo de piso e ao estado do tempo esperado. Normalmente, para percursos de duração superior a 1 dia é necessário transportar uma mochila mais pesada com alimentação e água potável suficiente para o percurso, muda de roupa suplente e abrigo (tenda e saco cama).
    Exemplos: Peregrinações, travessias de Serras, etc.
  • Muito Difícil
    Apenas para quem esteja em excelente forma física e tenha muita experiência em actividades de campo, normalmente obriga ao uso de material técnico e a conhecimentos especializados nas áreas da escalada e do montanhismo. Frequentes os declives muito acentuados e a presença de obstáculos naturais de ultrapassagem tecnicamente complexa. Os percursos referidos anteriormente (nível difícil) quando realizados em condições climatéricas extremas ou em media/alta montanha.
    Devem ser cumpridas todas as normas e regras de segurança e bom senso. Pode existir risco de lesões graves ou mesmo morte.
    Exemplos: Caminhadas nas serras mais altas com neve, Caminhadas em locais semi-áridos com muito calor, etc.
Podemos então concluir que o nível de dificuldade de um percurso é estabelecido tendo por base um conjunto de factores, resultando numa classificação meramente indicativa, válida para a "média" dos praticantes, mas que tem necessariamente de ser adaptada tendo em atenção os factores variáveis e principalmente as capacidades e condicionantes pessoais, por exemplo um percurso classificado como moderado quando realizado por uma pessoa com excesso de peso, em condições ambientais desfavoráveis e a um ritmo elevado pode ser considerado difícil para essa pessoa.
A consciência das capacidades individuais e a experiência em actividades de campo é fundamental para a segurança, para além das características especificas do percurso a realizar, as capacidades e limitações dos participantes têm sempre de ser consideradas, e devem assumir um papel preponderante no planeamento e desenvolvimento da actividade. 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

As grandes cheias de 1967 - E se fosse hoje?

Os especialistas afirmam que a probabilidade de um fenómeno semelhante ao de 1967 acontecer (período de retorno) é de uma vez a cada 500 anos, outros investigadores apontam para um período de retorno mais curto, cerca de um século. Mas independente da frequência, uma pergunta legitima subsiste, e se acontece-se novamente nos nossos dias?


Segundo o Sistema Nacional de Informação de Ambiente (SNIAmb) existem em Portugal Continental 23 "Zonas com Risco Potencial Significativo de Inundações", se  considerarmos um hipotético evento (período de retorno de 100 anos), nessas áreas especificas habitam mais de 50 mil pessoas que se encontram sujeitas ao risco de inundação.

Área potencial de inundação na área de Loures / Odivelas (Sistema Nacional de Informação de Ambiente)


Com base na experiência passada e em novos desenvolvimentos entretanto ocorridos foram identificadas zonas críticas (áreas com risco potencial significativo de inundações). A sua seleção foi efetuada a partir da análise de diversa informação, recolhida por diferentes organismos de abrangência nacional, regional e local, e armazenada numa base de dados específica alojada no Sistema Nacional de Informação de Recursos Hídricos (SNIRH). A informação recolhida foi obtida, fundamentalmente, a partir de estudos e relatórios e artigos sobre cheias, de projetos hidráulicos, de Planos de bacias Hidrográficas (1998-2001), de notícias sobre inundações, de dados hidrométricos (registos contínuos e marcas de cheia). Os dados recolhidos abrangem ocorrências associadas aos séculos XIX, XX e XI e de informação sobre a ocorrência de inundações e suas consequências (informação hidrológica e avaliação dos consequências de forma quantitativa ou qualitativa). Entre os critérios utilizados para seleção das zonas críticas foi a identificação de perdas de vidas humanas ou desaparecidos e do número de pessoas afetadas. As zonas críticas selecionadas, situadas em Portugal continental, foram analisadas tendo como base a descrição histórica de 651 aí registadas. A informação utilizada foi também cruzada com informação de uma outra base de dados de desastres naturais, de origem hidro-geomorfológica, visando a sua validação. Face à informação recolhida e sua análise, as zonas críticas selecionadas apresentam, em simultaneidade, as seguintes características: pelo menos uma pessoa desaparecida ou morta e no mínimo quinze pessoas afetadas (evacuados ou desalojados).

Lisboa, Rua de S. José em Outubro de 2015 (J. F. de Santo António

Se um fenómeno com a mesma amplitude acontecer actualmente, muito provavelmente a destruição será maior, infelizmente a memória é curta e embora alguns locais de risco elevado tenham sido renaturalizados e criadas infraestruturas de defesa para inundações e cheias rápidas, na maior parte dos locais onde os estragos foram mais avultados e onde ocorreram vitimas mortais, a ocupação do solo continua a ser desadequada e as pessoas que lá vivem estão em risco permanente.
A impermeabilização dos solos continuou, aquilo que eram bairros clandestinos, passaram a habitações permanentes, muitas vezes com vários pisos, continuou-se a construir junto dos cursos de água, habitação e mesmo grandes espaços industriais e comerciais, e a desviar, tapar e encanar ribeiras.
Mas nem tudo são más "noticias" se um fenómeno semelhante voltar a suceder nos próximos tempos a probabilidade de ocorrer um tão elevado número de vitimas é mais baixa, os sistemas de previsão e de alerta para fenómenos extremos evoluiu muito, agora as pessoas têm um acesso incomparavelmente melhor e mais rápido à informação e os sistemas e meios de socorro também melhoraram consideravelmente.
Em suma, se voltar a acontecer, ou melhor, quando voltar a acontecer, possivelmente os danos serão incomparavelmente mais extensos mas a perda de vidas humanas será menor.



Referência:

sábado, 25 de novembro de 2017

As cheias de Novembro de 1967

No dia 26 de Novembro de 1967, Portugal acordou com uma terrível noticia, a chuva que caíra abundantemente na noite e madrugada anterior tinha causado, na região de Lisboa, centenas de mortos.
O primeiro alerta ocorreu pelas 21:10 do dia 25 numa chamada para os Bombeiros Voluntários de Odivelas, as casas do lugar de Silvado estavam a ser invadidas pelas águas da ribeira.

Os efeitos das inundações (Revista Life)

Aquele sábado amanheceu chuvoso, uma chuva persistente que durou todo o dia, nada de anormal para um dia de Novembro, mas o pior estava para vir, ao principio da noite uma forte bátega abate-se sobre a capital e concelhos limítrofes. Entre as 19 e as 24 horas a estação meteorológica de S. Julião do Tojal (Loures) registou 111 mm (111 lt/m2), houve mesmo locais onde se registaram 170 mm, em apenas 5 horas choveu o equivalente a um quinto da precipitação média anual na região de Lisboa.

Mapa de precipitação do dia 25-11-1967 (IPMA)

Os mais de 700 mortos, embora oficialmente só tenham sido contabilizadas 462 vitimas, faz com que as cheias de Novembro de 1967, sejam consideradas a segunda maior catástrofe natural de que há noticia na região de Lisboa, logo depois do terrível terramoto de 1755.

Evolução do número de vitimas mortais entre o dia 30 de Novembro e 5 de Dezembro (Diário Popular)

Lisboa, Sintra, Loures, Cascais, Oeiras, Vila Franca de Xira, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Almada e Barreiro foram os concelhos mais afectados, mas as consequências tiveram a mesma gravidade em todo o lado, se nos concelhos mais "ricos" os danos materiais foram mais elevados, foi porém nos concelhos limítrofes e especialmente na áreas economicamente mais desfavorecidas que os custos em vidas humanas foram mais elevados, como quase sempre eram os mais pobres que se encontravam mais vulneráveis e expostos ao perigo.

Registo das ocorrências na cidade de Lisboa na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 (C. M. de Lisboa)

As instituições do estado assistiram quase impotentes ao desenrolar da tragédia, ao poder politico que tinha sido incapaz de manter as pessoas a salvo, ordenando o território, impedindo a construção em áreas de risco e promovendo a habitação social em áreas seguras, pouco mais lhe restava do que gerir e controlar a informação, de modo a "cair" o melhor possível  na opinião pública.

As noticias era sujeitas à censura (A Republica)

A censura estava instituída e  em pleno funcionamento, não saía uma noticia ou um espectáculo que não fosse visado previamente, tudo o que fosse "incómodo" para o poder instituído era "cortado" ou "suavizado". Nestes dias, atendendo ao volume de informação e ao inesperado da situação os sensores tiveram muito "trabalho", e se conseguiram travar uma ou outra informação mais "sensível" mas não foi de todo possível encobrir os contornos e os efeitos da tragédia.

Noticia censurada (Diário Popular)

Ainda hoje não se sabe ao certo quantas pessoas faleceram, a determinado momento a comissão de censura ordenou aos jornalistas que parassem a "contagem" dos mortos, tendo o número oficial ficado nos 462, mas estudos posteriores avançam com um número a rondar os 700. 

Porque choveu tanto?


Os valores extremamente elevados de precipitação, explicam-se pela conjunção de dois fenómenos meteorológicos, por um lado uma depressão muito cavada que avançou de sudoeste e por outro lado uma frente fria vinda de norte, a conjugação rara dos dois sistemas resultou num volume de precipitação perfeitamente anormal, nunca registado em Portugal.

A "culpa" foi da natureza?


Será que a catástrofe se ficou a dever a uma fatalidade, um "capricho" da natureza, como o governo da altura e os principais órgãos de comunicação social fizeram crer?
Sim e não. Se de facto a causa próxima foi a precipitação anormal, agravada por factores naturais como por exemplo as bacias hidrográficas da área terem dimensões reduzidas e com tempos de resposta muito curtos o que propicia cheias rápidas, ou o pico da precipitação ter coincidido com a preia-mar, o que impediu o escoamento rápido da água para o Tejo. Por outro lado os factores humanos resultantes do mau ordenamento do território agravaram enormemente os seus efeitos nefastos.
Devido ao êxodo rural das décadas anteriores, muitos dos habitantes do campo rumaram à região de Lisboa à procura de emprego na "cintura industrial" de modo a melhorarem as suas condições de vida, mas a falta de alojamentos acabou por "empurrar" essa enorme massa de gente pobre para bairros clandestinos, erigidos normalmente em antigos terrenos agrícolas e em áreas de várzea junto dos cursos de água.

Baixa de Algés (Revista Life)

Habitações destruídas em S. João do Tojal (Diário de Lisboa)

Bairro da Ulmeira (Diário Popular)

Quintas, Castanheira do Ribatejo (Revista Flama)

Ilha das Minhocas (Século Ilustrado)

Por outro lado o crescimento das áreas urbanas foi feito sem se acautelar os efeitos das chuvas, enormes áreas foram desmatadas e impermeabilizadas, contribuindo dessa forma para o impedimento da infiltração natural da água nos solos, muitas das linha de água foram canalizadas e cobertas, normalmente com infraestruturas que não permitiam o volume de água verificado, construíram-se igualmente muitas estruturas transversais nas linhas de água, com a força da corrente aumentada com a quantidade de detritos transportados (a água arrastou tudo, desde árvores, moveis, barracas, etc) muitas dessas estruturas acabaram por colapsar contribuindo para o transbordo das linhas de água, permitindo que a mesma chega-se a lugares onde era de todo inesperada.
O "saldo" não podia ser mais trágico, para além das largas centenas de mortos, cerca de 20 mil casas ficaram inabitáveis e mais de 1100 pessoas ficaram desalojadas.

Video sobre as causas e os efeitos (Arquivos RTP)

Quintas, a aldeia "mártir"


Quintas era (e é) uma pequena aldeia a poucos quilómetros de Castanheira do Ribatejo no concelho de Vila Franca de Xira, nessa noite de 1967 a pequena povoação viu as águas do Rio Grande da Pipa subirem repentinamente mais de oito metros, submergindo quase a totalidade das casas, dos cerca de 150 habitantes da localidade mais de 100 pereceram na madrugada do dia 26, conseguindo-se salvar, quase por "milagre", os que conseguiram alcançar os telhados das casas ou qualquer outro ponto alto seguro.


Localização de Quintas (Google)

Famílias inteiras pereceram em Quintas, gente de todas as idades, cujas memórias se encontram actualmente perpetuadas em dois monumentos, um no largo da Igreja, inaugurado em 2008, onde figuram os nomes das vitimas, e outro um pouco mais abaixo, em pleno "coração" da área atingida pela catástrofe e associado a uma rua renomeada em 1996 como "Rua 26 de Novembro de 1967" em evocação de uma data que perdurará na memória dos sobreviventes e na  dos que viram partir inesperadamente os seus entes queridos.

Monumento em memória das vitimas de Quintas (J.F. Castanheira do Ribatejo)

Os efeitos das inundações de 1967 na sociedade


Antes do mais, este trágico episódio histórico ajudou a despertar consciências, muitas pessoas tomaram pela primeira vez conhecimento da miséria que viva paredes meias e que por ignorância ou por indiferença não viam, ou não queriam ver.
A "máscara" paternalista e protectora do "Estado Novo" começou a cair nessa altura, como se podia confiar num estado que dizia forte, mas que se mostrava incapaz de proteger os mais fracos dos caprichos da natureza e da ganância de alguns, esses sim "protegidos"?
Pela primeira vez o termo "ordenamento do território" passa para a ordem do dia, muitos começam a entender a importância de ordenar a localização das actividades e das funções económicas e sociais, torna-se evidente que é necessário colocar as pessoas longe do perigo.
A sociedade civil, encabeçada pelas associações de estudantes universitários substitui-se ao estado na ajuda às populações afectadas. Cerca de cinco mil estudantes foram para o terreno ajudar a resgatar mortos e feridos, limpar destroços, recolher e distribuir bens e fundos para apoiar os necessitados e a aplicar vacinas para impedir a proliferação de doenças infecto-contagiosas.

A participação dos estudantes (Diário de Lisboa)

O contacto com a realidade contribuiu para a consciencialização social e para a politização dos milhares dos voluntários.
As águas desceram, os mortos enterrados, os feridos tratados, as ruas lavadas e os que ficaram sem casa formam realojados, mas as inundações deixaram uma marca indelével por todos os que tiveram conhecimento directo ou indirecto da tragédia que de uma forma ou outra constitui-se como um ponto de viragem na nossa história recente, e contribuiu para mudar Portugal.

E se fosse hoje?


Os especialistas afirmam que a probabilidade de um fenómeno dessa magnitude acontecer (período de retorno) é de uma vez a cada 500 anos, outros porém apontam para um período de retorno mais curto, cerca de um século. Mas independente da frequência, uma pergunta legitima subsiste, e se acontece-se novamente nos nosso dias?

Área potencial de inundação na área de Loures / Odivelas (Sistema Nacional de Informação de Ambiente)

Se um fenómeno com a mesma amplitude acontecer actualmente, muito provavelmente a destruição será maior, infelizmente a memória é curta e embora alguns locais de risco elevado tenham sido renaturalizados e criadas infraestruturas de defesa para inundações e cheias rápidas, na maior parte dos locais onde os estragos foram mais avultados e onde ocorreram vitimas mortais, a ocupação do solo continua a ser desadequada e as pessoas que lá vivem estão em risco permanente.
A impermeabilização dos solos continuou, aquilo que eram bairros clandestinos, passaram a habitações permanentes, muitas vezes com vários pisos, continuou-se a construir junto dos cursos de água, habitação e mesmo grandes espaços industriais e comerciais, e a desviar, tapar e encanar ribeiras.
Mas nem tudo são más "noticias" se um fenómeno semelhante voltar a suceder nos próximos tempos a probabilidade de ocorrer um tão elevado número de vitimas é mais baixa, os sistemas de previsão e de alerta para fenómenos extremos evoluiu muito, agora as pessoas têm um acesso incomparavelmente melhor e mais rápido à informação e os sistemas e meios de socorro também melhoraram consideravelmente.
Em suma, se voltar a acontecer, ou melhor, quando voltar a acontecer, possivelmente os danos serão incomparavelmente mais extensos mas a perda de vidas humanas será menor.
Relembrar estas tragédias não pode ser apenas um exercício jornalístico ou uma evocação da memória das vitimas, tem de servir igualmente para recordar a todos a importância do ordenamento do território e para a consciencialização dos riscos, só assim as mortes dessa já longínqua noite de Novembro não terão sido em vão.

Por: Luís Baltazar

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Dia da Floresta Autóctone - 23 novembro

Uma Floresta Autóctone é uma floresta de árvores originárias do próprio território. Neste caso, a floresta autóctone portuguesa, é toda a floresta formada por árvores originárias do nosso país, como é o caso dos carvalhos, dos medronheiros, dos castanheiros, dos loureiros, das azinheiras, dos azereiros, dos sobreiros, etc.


Porque devemos dar importância às florestas autóctones?


  • As florestas autóctones estão mais adaptadas às condições do solo e do clima do território, por isso são mais resistentes a pragas, doenças, longos períodos de seca ou de chuva intensa, em comparação com espécies introduzidas;
  • Ajudam a manter a fertilidade do espaço rural, o equilíbrio biológico das paisagens e a diversidade dos recursos genéticos;
  • As florestas autóctones fazem parte do nosso ecossistema. São importantes lugares de refúgio e reprodução para um grande número de espécies animais autóctones, muitas delas também em vias de extinção;
  • As florestas autóctones exercem um importante papel na regulação e melhoria do clima, bem como no sequestro de carbono da atmosfera contribuindo para a redução do efeito estufa;
  • Regulam o ciclo hidrológico e a qualidade da água, formam solo e servem ainda de matéria-prima a produtos fundamentais na vida quotidiana;
  • As florestas autóctones, embora de crescimento mais lento, quando bem desenvolvidas, são normalmente mais resistentes e resilientes aos incêndios florestais.
Novembro é a época ideal para plantar árvores de espécies autóctones. Uma sugestão adicional - em março, no Dia Internacional das Florestas, aproveite para verificar se as jovens árvores necessitam de rega.

Referências:

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Caminhadas regulares, mesmo curtas, estão ligadas a menor risco de mortalidade

Caminhar regularmente, mesmo que seja menos do que o mínimo recomendado para o condicionamento físico, está associado a menor mortalidade por qualquer causa em comparação ao sedentarismo, de acordo com novos dados de um grande estudo de coorte norte-americano de prevenção do câncer entre os idosos.

Caminhar no campo (Fonte: Ambitare.com)

"Muita gente se sente desmotivada para iniciar uma rotina de exercícios, acreditando que teria de começar a correr ou fazer grandes esforços", disse a primeira autora Alpa Patel, PhD, pesquisadora da American Cancer Society. "A simples caminhada fora de casa traz enormes benefícios à saúde".

Andar a pé é "simples, gratuito, e não exige nenhum treinamento", sendo "a atividade ideal para a maioria dos norte-americanos, especialmente à medida que envelhecem", observam Alpa e coautores.
Seu novo estudo foi publicado on-line em 19 de outubro no periódico American Journal of Preventive Medicine.

Várias diretrizes norte-americanas determinam que os adultos devem fazer mais de 150 minutos de exercícios de intensidade moderada ou 75 minutos de exercícios de forte intensidade por semana para ter uma "saúde ideal". Isto é considerado o mínimo necessário.
Porém, este novo estudo mostrou que 120 minutos ou menos de caminhadas de intensidade moderada por semana também aumentam a longevidade.
Em outras palavras, você pode ficar aquém da meta mínima necessária de exercícios para os adultos e ainda assim se beneficiar.
Não se trata de fazer uma "caminhada rápida", nem de "flanar pelo supermercado", enfatizou Alpa. O estudo avaliou a caminhada "a passo médio". Nesse ritmo, você pode "acabar aumentando um pouco a sua frequência respiratória, permitindo que você caminhe cerca de 1,5 km em 20 minutos", disse a pesquisadora.

"Caminhar nesse ritmo é considerado uma atividade de intensidade moderada, e isso é o que muita gente não percebe," observou Alpa.
Um pouco é melhor do que nada

Andar a pé é o tipo mais comum de atividade física realizada pelos norte-americanos, o que tem sido relacionado com menor risco de doença cardíaca, diabetes, câncer de mama e câncer de cólon. Mas o novo estudo é o primeiro a examinar apenas a caminhada (separada das outras atividades) em relação à mortalidade entre homens e mulheres mais velhos.
Para tal, Alpa e colaboradores revisaram dados de mais de 62.000 homens e 77.000 mulheres recrutadas na Cancer Prevention Study II Nutrition Cohort, que entrevistou reiteradamente os participantes por meio de questionários enviados pelo correio. O desfecho primário do estudo foi a morte por qualquer causa entre 1999 e 2013.

A média de idade dos participantes em 1999 foi de 71 anos para os homens e 69 anos para as mulheres.

No início estudo, em 1999, 5,8% dos homens e 6,6% das mulheres informaram não fazer nenhuma atividade física de moderada a vigorosa. Estes participantes "sedentários" tiveram 26% maior probabilidade de morrer prematuramente em comparação aos participantes do estudo que faziam "alguma" atividade, porém menos do que a recomendação mínima supracitada (hazard rate ratio = 1,26).
Contrariamente, a maior frequência de caminhadas foi associada a menor mortalidade por todas as causas (hazard rate ratio = 0,80).
"Você constata um risco 20% menor de mortalidade", disse Alpa sobre a comparação entre os participantes do estudo que alcançaram ou ultrapassaram a meta mínima recomendada, e aqueles que caminharam pouco (menos do que o mínimo).
As análises multivariadas foram ajustadas para outros fatores de risco como tabagismo, obesidade e doenças crônicas.
"Claramente, quanto mais você caminhar, melhor. Mas qualquer caminhada é melhor do que não caminhar. O pior é ser completamente sedentário", disse Alpa resumindo os resultados em uma entrevista ao Medscape.

O novo estudo traz "uma descoberta interessante, mas talvez não surpreendente", disse Roger Fielding, PhD, professor de nutrição e medicina da Friedman School of Nutrition Science and Policy, da Tufts University School of Medicine, em Boston, Massachusetts.
"O cerne da questão é que qualquer atividade física — neste caso, menos de duas horas por semana de caminhada — confere benefícios substanciais e clinicamente significativos em termos de mortalidade", disse Fielding por e-mail ao Medscape.
Este benefício é acentuado nas pessoas que atingem ou ultrapassam as metas recomendadas pelas diretrizes para a atividade física, resumiu o pesquisador, reforçando o que disse Alpa.
Há também uma relação proporcional entre a dose e a resposta em termos da frequência da atividade física feita durante mais de dois anos, inclusive a caminhada, na redução da mobilidade e do risco de degeneração funcional, acrescentou Fielding, citando o próprio estudo randomizado LIFE, publicado recentemente.
Alpa também apresenta os novos resultados em números absolutos, embora advertindo que estes números não estão controlados por fatores de confusão.
A incidência geral de mortalidade padronizada pela idade para os participantes sedentários é de 4.293 por 100.000. Esta mesma incidência é de 2.851 entre aqueles que andam menos do que o mínimo recomendado. Isto representa 1.442 mortes a menos por 100.000 pessoas do que para os participantes inativos.
A incidência cai ainda mais entre aqueles que alcançaram e ultrapassaram as metas recomendadas de atividade física: foi de apenas 2.088 por 100.000 participantes entre os que caminhavam uma ou duas vezes mais do que o recomendado. "Considero estas reduções de risco importantes", concluiu Alpa.
A pesquisadora também disse ao Medscape que faz caminhadas diárias ao longo dos 300 metros de calçada na sede da American Cancer Society, em Atlanta, durante a sua jornada de trabalho, e nas imediações do Centennial Olympic Park.
Seus colegas de trabalho fazem o mesmo. "Atualmente, muita gente faz reuniões caminhando, em vez de ficar sentada no escritório", disse a pesquisadora.

sábado, 4 de novembro de 2017

Detalhes em voz alta: uma técnica para não se perder no campo

Perder-se no campo pode ser uma experiência muito perturbadora e, quando prolongada, é fácil quem se encontra nessa situação confundir-se e tomar más decisões. Laurence Gonzales fala sobre isso no livro "Survival. Quem sobrevive, quem morre e por quê".

Actividade de campo (fonte: ambitare.com)

Quando alguém está desorientado, o seu cérebro começa a enviar sinais de emergência e as emoções ficam descontroladas, e isto acontece a todos mesmo aos "especialistas" em actividades da campo. Até meados do século passado, existia entre a comunidade cientifica a crença de que certos grupos humanos tinham algum tipo de sentido inato de orientação. A observação de que certos povos, um pouco por todo o mundo se conseguiam orientar na ausência de indicações claras sugeriu que existiria um sexto sentido, relacionado com o magnetismo terrestre.

Os aborígenes australianos e os naturais de Puluwat, no Pacífico Sul, eram exemplos de povos que pareciam inexplicavelmente capazes de se orientar. Mas quando essas comunidades foram estudadas com mais detalhe percebeu-se que que existiam ensinamentos que lhes permitiam desde pequenos a observar sinais muito subtis e usá-los, como quem usa placas de sinalização para seguir uma rota rodoviária. No entanto, essas pessoas também se perdiam. E a pesquisa descobriu que nessas alturas eles voltavam a encontrar o caminho certo porque conseguiam manter um mapa mental actualizado do seu território.

O autor do livro chegou mesmo a experimentar essa técnica numa saída de campo em grupo com Mark Morey, fundador do "Institute for Natural Learning":

Atravessando uma floresta sem caminhos, Mark Morey parava a cada 25 ou 30 metros para chamar a atenção para um ou outro pormenor e examinar as "descobertas". A determinado ponto ele pediu aos membros do grupo para apontarem o local de inicio da actividade, o que não foram capazes de fazer com clareza. Descobrir que não é capaz de encontrar o caminho de volta resulta sempre numa lição de modéstia e de humildade. O grupo estava simplesmente seguindo Mark, o que nunca é uma boa ideia. Eles não tinham seguido o seu próprio caminho e, como resultado, estavam perdidos. O guia então chamou a atenção para o último lugar onde tinham parado e que ainda era facilmente identificado.
- Lembram-se que existia lá uma trepadeira? Perguntou ele.
O grupo naquele local tinha tirado um bocado de uma trepadeira que era boa para improvisar cordas. Então o grupo voltou àquele ponto especifico e em seguida Mark apontou para outro local onde tinha exemplificado a foram de deslocação dos "índios"  Norte-americanos. O grupo voltou a esse lugar. A partir daí regressou ao sitio onde encontraram uma pegada de veado, e assim consecutivamente de paragem em paragem reconstituiriam o caminho de regresso. 

Morey, instruiu o grupo para que recordando os detalhes e as conversas, reencontrar o caminho para um ponto seguro, numa floresta homogénea, sem caminhos e sem sinais óbvios que lhes permitisse orientarem-se. Ensinou-lhes uma forma de com pouco esforço construírem um mapa mental fiável da área onde se encontravam.

É como a letra de uma canção, se conhecerem a letra toda nunca se perdem, ou se se perderem facilmente reencontrarão o caminho certo, esta técnica é utilizada ancestralmente pelos aborígenes australianos.
"Os mitos aborígenes da criação falam de seres lendários que vaguearam pelo continente [...] cantando alto o nome de tudo que cruzou o seu caminho : animais, plantas, pedras, poços de água ... dessa forma eles cantavam a existência do mundo ... Uma música ... era na época um mapa e algo que servia para encontrar direcções. Quem conhecer a música, pode encontrar sempre o caminho ».

Portanto lembre-se, quando for realizar uma actividade de campo, esteja atento ao pormenores, vá construindo o seu mapa mental, e se precisar de encontrar o caminho de volta recorde  todos os pormenores e facilmente sairá de uma situação que para além de desconfortável pode ser perigosa. Mas faça-o em voz alta, está comprovado cientificamente que quando se fala em voz alta (mesmo quando se está sozinho) as ideias ficam mais claras.

E tenha em atenção que a um mapa mental nunca falta o sinal nem as pilhas.

Por: Luís Baltazar


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Criado hoje o programa «Voluntariado Jovem para a Natureza e Florestas»

Foi publicado hoje em Diário da Republica a criação do programa «Voluntariado Jovem para a Natureza e Florestas».



Tendo por base a experiência positiva do programa «Voluntariado Jovem para as Florestas», suspenso desde 2011, o governo pretende agir de forma comprometida no sentido de voltar a possibilitar, anualmente, a operacionalização de um programa de voluntariado voltado à juventude, pois se o sucesso da preservação ambiental passa pela sensibilização da população em geral, certo é que passa, muito particularmente, pelo envolvimento dos jovens e sua forte consciencialização para este aspeto, de modo a que o futuro conte com uma sociedade mais preparada para o desafio essencial da preservação florestal.

Este programa visa contribuir para o aumento da educação e sensibilização para a valorização do ambiente, de resiliência da floresta e de proteção contra catástrofes, para o aumento do conhecimento geral sobre a natureza e florestas, e dos serviços ambientais por ela prestados, por via de ações de inventário ambiental e recolha de outros dados para a ciência dos fogos e das florestas e para o apoio a operações de ordenamento florestal e proteção ambiental.

No âmbito do Resolução do Conselho de Ministros n.º 166/2017 de 2 de Novembro, o programa conta com a participação da Autoridade Nacional de Proteção Civil, da Agência Portuguesa do Ambiente, I. P., do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P., e das comissões distritais e municipais de proteção civil, podendo envolver ainda outras entidades públicas ou privadas que se identifiquem com os objetivos do programa.